9.9.10

pontuação

no julgamento das palavras
quem bate o martelo
é o ponto-final.
não há espaço para reticências
ou travessões...

de testemunhas, e vírgulas,
estamos fartos e o júri !exclama:
- ?onde

sabe-se lá qual gramática ou retórica
esta dos pontos em que estamos
t o  n t    os
em
inquérito
(im)perfeito

dieta

sorver a
Palavra até
seu corpo
ser corpo só
vento e
cristalina
luz

simplicidade

existir:
como
resistir
ao escorrer
de si?

o suor diário nos enfim colocará em posição de salgar a terra - do pó ao pó; de pé à pá.

e no alfabeto da vida formularemos questões e questões e questões e questões e questões e questões e questões e questões e questões e questões e ...
para a mesma resposta.

questões descabidas para a mesma justa resposta.

existir
como
coexistir
comunicar
como
unicar
Elevocêeu.

existir como
queimar-se
em
sacrifício
vivo.

19.8.10

física

o corpo
se arrasta
sobre o
corpo do
planeta
se arrasta
sobre o
corpo do
vazio
se arrasta
sobre
?

o
vazio
se arrasta,
e é sobra -
insondável vaga

26.7.10

metanóia

uma
brisa de vida
ergue-me
em pó

e a cada respiração
me desenlaço
- em pé -
da sepultura

este corpo denso
esvai-se
, ventando,
dia a dia

3.7.10

descendência

a criação
possui
suave
cheiro Divino

e nós
(inebriados
com o êxtase
que somos)
entup'mos
n'ssas
n'darinas

14.6.10

a mangueira

... é a boca.
a água é
a língua.


e, boca-a-boca,
a cobra - d'água -
desencana-se de
tubo.

só-liquificando
placa
deitada ao
solo:
água-forte.

27.4.10

estopim

... o estopim de tudo
das dilacerações
das uniões
dos paradoxos

é o poema?

ou somos nós
arrastando-nos
na relva diária
correndo do leão
diário do medo diário
à luz do dia à luz da noite sob
nossas
sombras?

19.4.10

dia do índio

dia das mães
das crianças
da consciência negra
da mulher...

o calendário
como divã
sociológico.

15.4.10

existência

não sei se me vi vindo feito vidro ou vão

sei apenas isto:
eu m'olhando através
como n'um passo
túnel adentro

ou
sobre ponte
andando lento
...

...
cruamente o
fato simples era
eu -
sendo-me

31.3.10

receita de rotina

esquecer para trás
o feito

tornar-se afeito
aos simultâneos

e, aos sucedâneos,
joga-los para o
alto:

cairão sempre em sua cabeça em momento oportuno

11.3.10

rafaella e aécio

e,
esperando-se ambos,
aconteceram de frutificarem
entre suas peles
a distância

entre suas peles seus pêlos
entrarão memórias e
espasmos de memórias

e,
na flutuação das horas,
germinará dura
a ausência - mês a mês

e,
ao nono mês,
a barriga - plena -
terá se ocupado
em ocupar
sempre
nos dois
cada reentrância

e,
ocupadas todas,
o abismo entre as peles
o abismo entre os pêlos
romperá a bolsa,
imensamente,
uma saudade:

... gêmea.

*poema desenvolvido a partir de uma frase de msn da rafaella: 'nove meses, vou parir uma Saudade'

10.3.10

anatomia

é preciso desatar dos dedos
os dígitos os números as letras.
é preciso urgentemente dos
dedos desocupar-se
soltando-os a si mesmos apêndices dependurados dedos.

é preciso desatá-los. d e s a b o t o á - l o s.
até que mãos sejam apenas
a união dos dedos até que
os braços sejam união dos
dedos até que o corpo inteiro
seja um polegar ou, pelo menos,
um mínimo
apontando
para
cima:

ininterruptamente, Dedo.

5.3.10

literatura

e, se não

nada
a dizer,

escreva.

historieta 3*

e nas cidades deste reino subtropical, sempre houve apenas um motor. motor de cidade não é motor que mistura o cimento da laje do prédio. é preciso deixar tudo claro, pois, em primeiro lugar, é inerente ao motor uma fome constante: quanto mais rápido maior a cidade. é preciso, em seguida, mostrar que, embora motor, seu avanço produz muito atraso – e de que outro modo se enriquece da terra, uma vez que cada palmo conquistado não se dá sem largos passos erosivos?

e o motor, que é a ganância, faz das gentes duas. pouca gente tem muita cidade. e, esta cidade destes, é oferecida aos demais por aluguel: e, pelo aluguel, a cidade desses é mais um deserto que uma cidade. com isso, muita gente dessa tem nada e sobrevive – viver mesmo, ao pé-da-letra, é luxo. sobre o motor, que é a ganância, sabemos: construir a cidade para vendê-la, nunca habitá-la, é seu motor principal. seu mote imoral.


* texto feito 'sob encomenda' para integrar o roteiro do longa de carlos segundo: 'sozinho o herói muda', em elaboração.

confira o blog de carlos segundo: http://cassfilmes.blogspot.com/

3.3.10

dimensões

poemas curtos apenas
faço:
pois não me
resta o
tempo.

quanto aos grandes
passo:
pois tendo tal
tempo nem
poeta ou esteta
tento.

1.3.10

impulso

agora há pouco
um tema grandioso
tomou-me forte
- arrebatamento

quinze ou vinte versos depois
e a sensação que
dizê-lo todo
ser-me-ia
infinito

larguei

poesia é para temas
pequenantes
daqueles que todos já
escreveram

provavelmente agora há pouco,
alguém escreveu sobre nada
- e antes
deste ardor arder
ardeu em outro agora
a pouco
quantes?

música

... e como uma canção
tocada à distância
pela rede nos
toca

... e um sentimento
se desentoca. imagino
esta voz
tocada ao lado
como
enfiada estaca.

.som no peito
estocado
e o morto
pelo toc
vivo tornado.

25.2.10

fluxo

em um hipotético
poema-tubo
você entraria,
palavra
- sem saber da
extensão
de antemão
ou do atrito -
de um hipotético
tubo-palavra
sairia você,
poema,
aflito

23.2.10

poema parasita 3 - ou contagem regressiva para o amor

se você vem às quatro da tarde,
desde às três eu começarei a ser feliz


e nós dois seremos cedo
um só amor.


* os versos em vermelho são do livro 'o pequeno príncipe', de antoine de saint-exupéry

historieta 2

...e quando nasci, ou ainda, enquanto eu nascia, muita coisa se desenvolvia ao meu redor: a respiração de minha mãe, de meu pai, do médico, do enfermeiro, o sistema financeiro, a década perdida. talvez fosse uma médica, uma enfermeira e minhas avós ali, desenvolvendo suas respirações, suas carreiras, seus amores - me lembro pouco disso desse evento de meu nascimento. o certo é que, nascendo, também eu agora me desenvolvia, extra-útero. após o alívio de meu nascimento para minha mãe, minha médica(o), minhas avós, meu pai e outros; após mesmo o alívio de minha mãe - pois paria - passei a ser em desenvolvimento explícito. claro que antes, no ventre, era desenvolvido em uma série de duplicações de carne. mas desenvolver-se-ia para os outros a partir de então, assim, de fora de minha mãe. e a década perdida começava a perder-se equanto eu ganhava a vida, palavras  e dentes. após, ganhando ainda palavra a palavra, perdia dente a dente. perdia e ganhava. com o tempo, as cadeiras, os frangos, as músicas, as dores e revistas passavam a ser eu. desenvolvia-me então nas coisas, nas leituras, nas tabuadas e fugas. experimentava a mim mesmo nas coisas à medida que me desenvolvia 'com n'elas. duas árvores, três sonhos e sapatos sou. a vida? partitura em movimento, escritura em transferência. escapo, entre posses e passos, para a eternidade.

22.2.10

cinema

ter a mesma idéia
de sempre
até a transfiguração

(figurar as palavras que desfiguraram as imagens
isto faz o cinema)

m-o-n-t-a-g-e-m

a cena estanque
na cabeça

de fora
a realidade
fora do
enquadramento

dentro
a realidade
muda
e a ilusão
fala

diálogos 3

- dá-me pouso, poeta!
pois sou verso solto
com aresta, duro
de letra incauta grossa
dá-me pouso, poeta.

- dá-me repouso, poema!
pois sou homem tolo
sem conversa, pulo
sobre a letra gasta, exposta
e dou-lhe um soco de poeta.

18.2.10

historieta

... e em um dado quartel havia soldados, como em qualquer um. havia porém, neste, um grupo distinto do grupo maior de soldados que se acha sempre em quartéis. nem por isso este quartel deixava de ser um apenas quartel. o porém se refere à grande habilidade de cada soldado deste sub-grupo em correr. tudo era feito na extrema correria neste quartel por estes soldados - e veja que neste quartel só se corria o comum de correr mesmo de quartéis. de nome corrente era cada soldado assim que corria. mais do que os demais, um corrente sempre era presente em tudo e em quando. mesmo em atraso os correntes corriam mais e estavam antes que os demais. em exercícios de correr aquela correria era natural a eles, mas esforço para os outros que andavam predominantemente. de correr tanto aquele quartel, que não era por isso destaque dentre os quartéis, ficava sempre em movimento. não o movimento habitual de quartel que vigia constante. a circulação de correntes tornava a vida do quartel fluida como em um rio. havia, por isso, soldados corredores nos outros quartéis. neste não, pois correntes. no final do dia os correntes paravam. da primeira vez do primeiro corrente no primeiro dia parar houve espanto. com o segundo dia com o segundo corrente e o terceiro e o quarto houve ainda espanto, embora cada vez menos. cada vez menos até do espanto ficar apenas um leve espasmo dentro dos demais soldados. como se o quartel soluçasse uma vez por dia. esta era a pausa diária e, deste modo, os correntes - mais do que correr de lá para cá - sinalizavam que o repouso sempre era o grande objetivo.

12.2.10

semântica

... e o sentido das
coisas distribuídas
pelo chão pelo tampo da mesa pelos veios da
memória pelo tempo -
minha casa
extrapola qualquer
sentido
na medida
em que cada coisa
distribuída é
deveras sentida -

na porção que
me sinto
em cada
coisa
existo minha casa
existo eu:
casa de veraneio
neste condomínio

11.2.10

um poema preguiçoso

como todos os outros
poemas:
preguiçosos

como todos os outros
poemas
pois são
preguiçosamente
feitos

(todo poema é elevação da preguiça à trabalho árduo)

e o poeta,
como
sublimação:

do esforço
da palavra útil
pela sombra
da calada preguiça

9.2.10

biblioteca

o pássaro na marquise
pousa
sobre o silêncio

(abaixo o salão)

na profusão de idéias
empapeladas

(!ave textos!)

(re) pousa

abarca com a vista
(não com a memória)
os recônditos as idéias as dissimulações
em suas
páginas

a ave paira no ar
- seu pouso agora é o vento –

em meio à
    r  e      v   o           a            d                        a
letras cabaleiam:
frenesi-linguístico
os sons (mudos)
as casas (de papel)

8.2.10

poema redondo

e escrever e escrever e
escrever e escrever até virar
linha o que
antes letra
era um
poema enovela-se
infindo caminho
de si

e

escombro

é o que desaba
do verso dencontro
com outro
de ombro
é o que deságua
do leito do
escambo
do verbo

poema quadrado

deste lado
é não ter como
se virar

virando
estar sempre
deste lado

conversão

uma letra pura
pousa incauta
em minha ferida:

suave como dizer
escorre ou
esfuma
ela embebe-se
de minha espuma
e logo sou
são.

3.2.10

... e olhando o fotógrafo passar

só nos resta o
rastro

(como se dali nunca fosse - como se antes uma mosca sobre a água, uma estrela sobre o tempo)

do seu olhar

* este poema está em construção - caso tenha contribuições de verso contribua e seja também autor do mesmo. poema coletivo. A idéia deste poema é simples:

são 3 versos - só nos resta o/rastro/do seu olhar

mas que só se completam com o título, então seria assim:

... e olhando o fotógrafo passar
só nos resta o
rastro
do seu olhar

a inserção de um verso - um enxerto - é uma escolha para chacoalhar os versos acima, que são bastante previsíveis: através da abertura de parênteses se descreve o caminhar de um fotógrafo em ação, pela cidade, naquele 'transe típico' de quem está observando enquadramentos ou configurações visuais inusitadas ou harmoniosas... o verso é o seguinte:

(como se dali nunca fosse - como se antes uma mosca sobre a água, uma estrela sobre o tempo)

E é isso... proponho um poema em conjunto. Já está dissecado sobre a mesa. Agora que viva o Frankenstein.

1.2.10

hoje é domingo e acho que vai chover

cachorro fazendo
graça - é o verso
molhado
de chuva -

que espirra lama

é o olho que passa
e não pasma

o verso
disfarça e
pergunta:

será?

(aos Paralamas do Sucesso)

27.1.10

poema sobre o vento

ao vento
escrever

este poema

ao vento
ofereço

este poema

ao vento
arremesso

este poema

no vento
este poema
escrevo

como se

eu no poema
(o poema em mim)

ventássemos
um céu pessoal

26.1.10

paulo

e à sombra de meu avô
caminho uma vida

observo meus
semelhantes
e sinto
estranhamento

a família -
suas lembranças
suas pegadas em cada um

e
sua ausência
é
seu maior discurso

(para minha mãe)

25.1.10

sobre meu lirismo

escrever sobre mim
não m'é possível -

gosto de olhar o
corpo do objeto
até ser permitido
tocá-lo para
obter a resposta,
sempre inesperada -

escrever é revelação
da substância na palavra (como em 'substância' vislumbro o 'súbito')

escrever um poema é
esculpir com o sopro
e, de súbito, o
toque:

poetrifico-me

23.1.10

purificação - ou tipologia de poema

TEMA -
escrever um
pequeno poema
que alcance
o vigor de um
surto etimológico

VARIAÇÃO 1 -
em que a
palavra da
frente
se funda com
a vizinha que
se funda com
avizinhaquesefundacom

VARIAÇÃO 2 -
escrever que
os sentidos se
enlacem como
numa taça de
vinho como
amálgama semântico

PREPARAÇÃO À CONCLUSÃO -
derreter um
pequeno poema
em busca da
unidade pelo fogo

CONCLUSÃO -
disto é a
poesia:
derreter o
idioma
em busca da
palavra escória

8 segundos

esporádico o
coice do cavaleiro
sobre o boi

20.1.10

elevação da palavra

remover a densidade
é aparar
é exaurir
o
sobressalente

reduzir é tornar-se
radioso - entre o vazio e o buraco negro temos o hidrogênio.

remover a densidade
é apurar a medida

é torna-la
residual

remover o que
não se apegou
à mucosa da
boca nem
se abraçou
à ventosa
da língua

e...

ando escrevendo de qualquer jeito de supetão
de assalto pego no teclado e disparo um poema
de susto de 100 metros rasos de saque rápido

a fluidez inerente ao ato
irresponsável tem sido
minha única rebeldia

(a fluidez é um sumo viscoso
um vício sorvido na ponta
da tecla)

escrever de esbarro:
vaso cerâmico é o
poema

o poeta
o oleiro

(assopra-se o ânimo):

ex-barro

18.1.10

assopro

repetir é sim um dom do estilo

e
manoel de barros
é um padrão
e
sua poesia a beleza
no padrão

(como num coral num jabuti num tecido numa teia - na respiração)

um poema é fugido
do cinzel da
correção
quando se torna
atmosférico

quando é estalo
na alma

poesia é pneumática
e o poeta
o compressor

repetir sempre
pois
em poesia, sucesso
vem do sempre:

elevar-se do
papel
pela insistência,

ser-se vento

12.1.10

11.1.10

poeta profissional

é escrever em horário comercial
5 x 8 de segunda a sexta
e, pro descanso,
futebol

feriado é dia santo:
silêncio do
poema

7.1.10

sonho

sonhei
com
o poema

cada palavra
mel
deslizava pela
cama

sonhei
e
cada palavra
cristal
rutilava pela
cama

sonhei céu
com
o verso o verso meu
sonhei-o
pleno

cada palavra
calma
suspirava pela
cama

sonhei manso

sonhei
o poema
todo

cada palavra
poema
extravasava
cama

e
da flama do poema
só restou
- acordado -
o papel
amassado ao pé da
cama

6.1.10

ventoinha

espera
a
chuva pára brisa quente chega perto rosto fosco lusco fusca pisco pisca pára!
na
estrada

o hífen reduz a palavra

decupagem

a natureza nos
experimenta
um sentido de cada:

ora luz do
vaga-lume

ora canto da
cigarra

das luzes

1 vaga-lume
piscou
na sala

a TV
enciumada
brilhou

1000 vaga-lumes
a TV
na sala

de ciúmes
o bicho
voou

vaga-lume

ontem à noite
22:15 um
objeto voador
piscou na sala:
auto-identificação.

pequeno dicionário de exercícios poéticos

verbete: vaga-lume | s.m.

velocidade da luz
em poesia

pequeno dicionário de exercícios poéticos

verbete: vaga-lume | s.m.

ON:
lume

OFF:
vaga

vaga-lume

se possível fosse
eu brilharia para
você esta palavra.

pílula da luz

daqui de casa
vaga-lume,
estrela nada.

4.1.10

paisagem 2

a paisagem urbana
se esparrama dura
(e)
o sentimento, na praça
(é)
um policial à paisana.

o escafandro e a borboleta

(
onde pálpebras
são
asas
o silêncio
explode
em piscar
de olhos
)

pequeno dicionário de exercícios poéticos

verbete: Deuss.m.

alto-ajuda.

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