15.7.09

hifenização

estes olhos furta-cor
engolem arco-íris:
não querem saber de ano-luz, cheiro-verde, feijão preto, amizade-colorida, manga-rosa...
zaz-traz! (um relâmpago passa, curto-circuito natural)
este arranha-céu
e sua silhoueta desenhada
em claro-escuro.
esta tarde rubro-negra
arrota hífens e afins.

10.7.09

xenofobia










(para Aécio Lôbo)

pílula d'ajuda

para menores informações
consulte o medíocre.

8.7.09

fontes

finca-se a pá
no solo desta tela
chegam-se às fontes:

arial
times new roman
courier
lucida's writing
verdana
georgia

e outras tantas
opções para o lirismo destes tempos.

7.7.09

navegação

minhas costas recebem
ondas ininterruptas
navios, torpedos,
conchas rombudas.

em minhas costas
inexistem porto seguro
ou espera da amada
apenas a obscura recepção
de rochedos escarpados.

este meu litoral curvilíneo,
habitado de ouriços marinhos,
resiste manco, solitário,
às vagas, às velas, aos ventos.

minhas costas
antevêem em sua linha sinuosa -
cedendo, erodida -
um lento transformar-se
em dolorida baia.

pílula da dor

estas costas
mal suportam meu ego
menos ainda
esta dolorida carne.

6.7.09

estratégia de leitura

andar todo o verso
começo ao fim.

lê-lo sem remorso
o verso direto
como seu braço
direito.

lê-lo ainda um,
o verso reverso:
o poema nunca
se estabiliza.

lê-lo até sua redução,
crua, letra a letra,
cru - o poema estendido
na mesa de dissecação.

3.7.09

resto

este esqueleto mal nascido como
se um faquir insaciável
o habitasse como
se uma revoada de pica-paus
o habitasse como
se uma matilha raivosa
o habitasse como
se não houvesse como habitar
este corpo neste esqueleto
como se não pudesse suportar
uma casa o solo, uma prece o santo,
como se não houvesse habitar
como se só o de doer, o de moer, como
este esqueleto nascesse
pura carne, pura pele,
como.

...
de resto
o desejo da eterna flutação
como bóia, como ave,
como fluidez imanente.

2.7.09

margear

poema com palavrão
nunca foi fácil
sempre tem aquela facilidade
do espanto do choque
que espanta o poema.

quero mesmo é poema
sobre qualquer coisa nula
que não choca nem espanta
senão pelo próprio espanto
do pejo do poema.

pequeno dicionário de exercícios poéticos

verbete: s.m. cor

1. cor é a ventilação
do ar
assoprada no olho.

2. cor é a pimenta
no olho
um refresco de ar.

contradito

o tapa na cara
destapa a vergonha
da cara.

o monte de terra
esconde o desmonte
do corpo.

a pele na carne
repele a vista
do osso.

o dito fica solto
inaudito fica
o preso.

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