25.2.10

fluxo

em um hipotético
poema-tubo
você entraria,
palavra
- sem saber da
extensão
de antemão
ou do atrito -
de um hipotético
tubo-palavra
sairia você,
poema,
aflito

23.2.10

poema parasita 3 - ou contagem regressiva para o amor

se você vem às quatro da tarde,
desde às três eu começarei a ser feliz


e nós dois seremos cedo
um só amor.


* os versos em vermelho são do livro 'o pequeno príncipe', de antoine de saint-exupéry

historieta 2

...e quando nasci, ou ainda, enquanto eu nascia, muita coisa se desenvolvia ao meu redor: a respiração de minha mãe, de meu pai, do médico, do enfermeiro, o sistema financeiro, a década perdida. talvez fosse uma médica, uma enfermeira e minhas avós ali, desenvolvendo suas respirações, suas carreiras, seus amores - me lembro pouco disso desse evento de meu nascimento. o certo é que, nascendo, também eu agora me desenvolvia, extra-útero. após o alívio de meu nascimento para minha mãe, minha médica(o), minhas avós, meu pai e outros; após mesmo o alívio de minha mãe - pois paria - passei a ser em desenvolvimento explícito. claro que antes, no ventre, era desenvolvido em uma série de duplicações de carne. mas desenvolver-se-ia para os outros a partir de então, assim, de fora de minha mãe. e a década perdida começava a perder-se equanto eu ganhava a vida, palavras  e dentes. após, ganhando ainda palavra a palavra, perdia dente a dente. perdia e ganhava. com o tempo, as cadeiras, os frangos, as músicas, as dores e revistas passavam a ser eu. desenvolvia-me então nas coisas, nas leituras, nas tabuadas e fugas. experimentava a mim mesmo nas coisas à medida que me desenvolvia 'com n'elas. duas árvores, três sonhos e sapatos sou. a vida? partitura em movimento, escritura em transferência. escapo, entre posses e passos, para a eternidade.

22.2.10

cinema

ter a mesma idéia
de sempre
até a transfiguração

(figurar as palavras que desfiguraram as imagens
isto faz o cinema)

m-o-n-t-a-g-e-m

a cena estanque
na cabeça

de fora
a realidade
fora do
enquadramento

dentro
a realidade
muda
e a ilusão
fala

diálogos 3

- dá-me pouso, poeta!
pois sou verso solto
com aresta, duro
de letra incauta grossa
dá-me pouso, poeta.

- dá-me repouso, poema!
pois sou homem tolo
sem conversa, pulo
sobre a letra gasta, exposta
e dou-lhe um soco de poeta.

18.2.10

historieta

... e em um dado quartel havia soldados, como em qualquer um. havia porém, neste, um grupo distinto do grupo maior de soldados que se acha sempre em quartéis. nem por isso este quartel deixava de ser um apenas quartel. o porém se refere à grande habilidade de cada soldado deste sub-grupo em correr. tudo era feito na extrema correria neste quartel por estes soldados - e veja que neste quartel só se corria o comum de correr mesmo de quartéis. de nome corrente era cada soldado assim que corria. mais do que os demais, um corrente sempre era presente em tudo e em quando. mesmo em atraso os correntes corriam mais e estavam antes que os demais. em exercícios de correr aquela correria era natural a eles, mas esforço para os outros que andavam predominantemente. de correr tanto aquele quartel, que não era por isso destaque dentre os quartéis, ficava sempre em movimento. não o movimento habitual de quartel que vigia constante. a circulação de correntes tornava a vida do quartel fluida como em um rio. havia, por isso, soldados corredores nos outros quartéis. neste não, pois correntes. no final do dia os correntes paravam. da primeira vez do primeiro corrente no primeiro dia parar houve espanto. com o segundo dia com o segundo corrente e o terceiro e o quarto houve ainda espanto, embora cada vez menos. cada vez menos até do espanto ficar apenas um leve espasmo dentro dos demais soldados. como se o quartel soluçasse uma vez por dia. esta era a pausa diária e, deste modo, os correntes - mais do que correr de lá para cá - sinalizavam que o repouso sempre era o grande objetivo.

12.2.10

semântica

... e o sentido das
coisas distribuídas
pelo chão pelo tampo da mesa pelos veios da
memória pelo tempo -
minha casa
extrapola qualquer
sentido
na medida
em que cada coisa
distribuída é
deveras sentida -

na porção que
me sinto
em cada
coisa
existo minha casa
existo eu:
casa de veraneio
neste condomínio

11.2.10

um poema preguiçoso

como todos os outros
poemas:
preguiçosos

como todos os outros
poemas
pois são
preguiçosamente
feitos

(todo poema é elevação da preguiça à trabalho árduo)

e o poeta,
como
sublimação:

do esforço
da palavra útil
pela sombra
da calada preguiça

9.2.10

biblioteca

o pássaro na marquise
pousa
sobre o silêncio

(abaixo o salão)

na profusão de idéias
empapeladas

(!ave textos!)

(re) pousa

abarca com a vista
(não com a memória)
os recônditos as idéias as dissimulações
em suas
páginas

a ave paira no ar
- seu pouso agora é o vento –

em meio à
    r  e      v   o           a            d                        a
letras cabaleiam:
frenesi-linguístico
os sons (mudos)
as casas (de papel)

8.2.10

poema redondo

e escrever e escrever e
escrever e escrever até virar
linha o que
antes letra
era um
poema enovela-se
infindo caminho
de si

e

escombro

é o que desaba
do verso dencontro
com outro
de ombro
é o que deságua
do leito do
escambo
do verbo

poema quadrado

deste lado
é não ter como
se virar

virando
estar sempre
deste lado

conversão

uma letra pura
pousa incauta
em minha ferida:

suave como dizer
escorre ou
esfuma
ela embebe-se
de minha espuma
e logo sou
são.

3.2.10

... e olhando o fotógrafo passar

só nos resta o
rastro

(como se dali nunca fosse - como se antes uma mosca sobre a água, uma estrela sobre o tempo)

do seu olhar

* este poema está em construção - caso tenha contribuições de verso contribua e seja também autor do mesmo. poema coletivo. A idéia deste poema é simples:

são 3 versos - só nos resta o/rastro/do seu olhar

mas que só se completam com o título, então seria assim:

... e olhando o fotógrafo passar
só nos resta o
rastro
do seu olhar

a inserção de um verso - um enxerto - é uma escolha para chacoalhar os versos acima, que são bastante previsíveis: através da abertura de parênteses se descreve o caminhar de um fotógrafo em ação, pela cidade, naquele 'transe típico' de quem está observando enquadramentos ou configurações visuais inusitadas ou harmoniosas... o verso é o seguinte:

(como se dali nunca fosse - como se antes uma mosca sobre a água, uma estrela sobre o tempo)

E é isso... proponho um poema em conjunto. Já está dissecado sobre a mesa. Agora que viva o Frankenstein.

1.2.10

hoje é domingo e acho que vai chover

cachorro fazendo
graça - é o verso
molhado
de chuva -

que espirra lama

é o olho que passa
e não pasma

o verso
disfarça e
pergunta:

será?

(aos Paralamas do Sucesso)

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