28.4.09

Infância

cai cai balão
queime tudo
queime não.

cai cai balão
cai aqui
ali não.

cai cai balão
lá na rua
lá no chão.

cai cai balão.

o quartel pegou fogo
dona chica admirou-se: vamos cirandar!
é mentira da barata.

cai balão, a canoa virou:

cai cai balão
cai cai sabão
cai cai anel
cai madrinha
cai sapo, lagoa, pé
cai jó, escravos,
cai índios,
cai.

16.4.09

insurreição

às vezes dói
(há o que purgar)
a dor decanta
às vezes corrói
escória escorre sua cor
pelo ventre
há quem não sinta
às vezes mói
denso, rombuda mó
esfarinha o ser, pó.

às vezes muda:
um broto brota fundo
raízes pululam
intumescidas umedecidas fincam-surgem
purga-se o asco o turvo o tosco
do corpo destilado
desabrocham-se pelos poros
florada da carne
a pele húmus perfeito.

transfigura-se em cores
toda dor.
flor.

6.4.09

arrepio

arrepio póstumo é memória cutânea.
mas, é além da memória (mero espectro)
vaga que retorna incólume.

ele é além, pois volta o mesmo
embora sem a presença do estímulo - este, já sombra.

eriçar das raízes
sempre o mesmo intenso
correr do esticar do pêlo
com cada inerte em seu lugar na corrente.
apêndices da pele em êxtase
a qualquer hora
paralisam todo o fluxo através do seu próprio
em êxtase filamentoso
o corpo oscila
entre o sono
e a sublevação.

 

3.4.09

ensaio de um dínamo com excitação separada para obtenção do nada

dançar
a
última
dança.

pisar o território transcendente
fruir o passo do tempo, infinito em suspensão.

mover-se fluido pela própria pele - nadador contido -
mover-se indefinido.

remover-se arrebatado
a última dança
o agora!

Do olhar

não vê quem olha o olho ali no rosto
não se sabe como a retina redonda enquadra
não se estampa o detalhe (ou o jogo) capturado
no instante exato
no ar ou
no pensamento.
não se descobre por que caminhos o olho, a máquina e o dedo iluminam o corriqueiro.
de onde a fotogenia do fungo ou do cimento?
por acaso há beleza num poste? num pepino?

saber do congelar indispensável à fotografia
ter, no olho, a agudeza do fio de navalha:
fatiar, do mundo, as cores certas, o gesto puro.

(para Mairla Melo)

2.4.09

Biografia

aos 3 anos aprendi a aprender.
aos 7 tirava asa de cachorro.
aos 10 descobri o abismo entre meu pé direito e o esquerdo.
aos 13 percebi que minha orelha fora colocada de ponta-cabeça.
aos 15, as meninas.
aos 17 aprendi a apreender - também a dirigir.
aos 21 chorei.
aos 23 meu olho virou e vi diferente o que ainda era o mesmo.
aos 27 anos, esperar

(to be continued...)

1.4.09

instante

evitar o temporão.
não ao descompassado fruto da impaciência,
às adstringências.
solapar todo passo incauto, cada anterioridade
elidir o caldo não fervido, a frase não cultivada
conter as explosões líricas
reprimir o evolar-se espontâneo.
não ao salto e ao zoom.

cautela:
passos controlados, respiração profunda
não há ato impensado, não mais o furo
cautela:
estica o braço e colhe a vida em plenitude
sem precocidades
só há o tempo certo
só há o descoberto.

(para Robisson Sete)

pílula

acordar da cama
a cor do coma.

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