24.8.09

encurtação

há poesia.
palavras: desnecessarias.

mas como elidi-las ante
o peso da linguagem?
como suprimi-las
quando assentam-se
dominantes
senhores de engenho diante
de vasto latinfúndio?

0.
palavras são como montes, suas sombras alcaçam
todas as paragens e o sol brilha inútil.

1.
desverbarizar as coisas
antes de tornarem
antes da codificação -
alcança-las rápido, ainda em etimologia -
esta dança embrião capturada
dá nascimento à poesia:
palavras são códigos para essências
e poemas, palavras voltadas a essências.

2.
odores irrompem da leitura de um poema -
há movimentação de essências no papel.

3.
falar de diminuições é preciso.
o mínimo existencial,
sem corporeidade ou ocupação,
eterno prenhe, apresenta
espessa densidade:
lugar poético pleno.
decadência ao ponto, vertiginosa queda.
escrevê-lo é decantação.

4.
palavras - imagens empobrecidas? -
operam por artifícios vítreos
abstraídas do peso do olhar.

5.
saber o poema mesmo diante
de sua incontinência inerente.
sabê-lo jorro
(induzir intumescências em seu cerne
produzi-lo faca cujo corte costure
em ausência de fenda -
nasce a linha do movimento de sutura).
lê-lo com a boca:
poema se dá na língua,
antes do olhar.
sabê-lo mesmo diante
de sua incontinente inerência.

6.
poema é
esculpir sem matéria
antes uma dedicação
do que um desempenho.
nasce o poema quando
uma intenção de agir
se perde em sonho ou
concretudes em fumaça.
poema é poesia com
corpo de palavras.

7.
captação - um banco de antenas
(ou uma formiga escala um poste ou simplesmente
um jovem e suas palavras-cruzadas)
um sopro as desalinha,
um gracejo linguístico:
1. idéias se coagulam
2. cai o maná semântico
3. poetas se alimentam
4. impurezas ficam pelo estômago, pelo intestino,
5. sai pelo reto o poema e
6. reto e límpido cai na folha branca.

8.
o poeta é antes uma prensa do que um poeta.

9.
há palavras. não há o poema.
poema mesmo é uma resistência
ao fluir manso da linguagem,
um acidente premeditado.
é redução contínua,
ato irresponsável.

10.
arremessar lufadas de ar contra
a inexorável chama do idioma:
a chama da convenção consome a língua (movimento suicida)
o poema sopra na vela seu teor de parafina. a chama se sustém.

11.
!:
da prensa de vento do poeta
escorre (agora) a palavra
amanhã.

17.8.09

do ponto ao traço

galinhas d'angola carregam pontos,
zebras, listras.

na campina - uma zebra em disparada
deixa angolas rolando pelo
caminho.
no caminho - galinhas d'angola saltitando
criam, na campina,
zebras voadoras.

(para Itamar Rios)

7.8.09

escambo

saia troca calça troca tela troca
brinco troca bota troca bolsa troca
troca bala troca pelo troca muda...

troca a peça à vista troca pele troca
revista.
troca pela troca pelo velho pela troca
nova troca velha troca pelo trôco.

troca.

a novidade pela troca vem do velho:
renovo. reuso. retorno.
revista troca livro troca colcha troca o mesmo troca
pouco?
troça?
troco.

(pipa/skate/bicicleta/balanço
pulo/roda/voa:
na dança dos objetos, o vento - onipresente).

(para Ariel Lazzarin)

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