15.5.09

alfabética

arrumando a caza:
z por s.
arrumando a casa:
s por r.
arrumando a cara:
a por e.
esfregando a cera:
põe c.
arrumando a cerca:
c por p. c por d.
pronto, tudo é perda.

14.5.09

varal

duas varas.
uma...
outra...

vara roupa roupa roupa roupa roupa roupa vara
vara verde rasgo nova preta velha ocre etc vara
chão ________________________________chão

desloca-se o ar por entre os poros/ausência de tecido
relimpam-se as cores. escorrem as dores.

percorrem os raios de sol as estendidas/distorcidas peças
evapora-se a água. sublimam-se as manchas.

varal é um fio suspenso cuja intenção é não ser notado
cuja única opção é ser moldura para retalhos suspensos
como folhas, como nuvens, como roupas num varal
varal é onde a luz solar e o caminho do ar se solidificam
amálgama cósmico e diário - pois é da roupa

um dia vi um quintal servindo de fundo a um varal
veio o vento:
vental.


(para Herbert Vianna)

13.5.09

iniciação

queimar as pontes
destruir os elevadores
estilhaçar as lajes
arrombar as portas.

queimar as pontes, usar o barco.
destruir os elevadores, subir de escada.
estilhaçar as lajes, contemplar o sol.
arrombar as portas, pular a janela.

queimar o barco.
destruir a escada.
ruir o sol.
arrombar a janela.

assim, desobrigados:
sobram o
infinito
você
e
eu.

8.5.09

ortopedista em disfunção

como estalam os crânios -
craquelados?
como estalam os crânios -
pulverizados?
como estalam?

a roda do dia roda:
roda roda roda
a roda do dia não sabe o crânio sob a face
a roda do dia não sabe a expressão pétrea
sob a
epidermáscara.

comestalam?
comer o crânio diário
os miolos lamber.
como estalam entre os dentes o crânio?
(que estranha moedura oferece à boca?)
esfarinha-se? estilhaça-se?
comoestalam seus hemisférios?
que geografia cerebral esconde o escalpo?


não sabe a senda cabeluda nada.
estrutura lunar, relicário pessoal.
como estala um crânio sob o peso do dia?

abrigo de tudo
o crânio escondido.

28.4.09

Infância

cai cai balão
queime tudo
queime não.

cai cai balão
cai aqui
ali não.

cai cai balão
lá na rua
lá no chão.

cai cai balão.

o quartel pegou fogo
dona chica admirou-se: vamos cirandar!
é mentira da barata.

cai balão, a canoa virou:

cai cai balão
cai cai sabão
cai cai anel
cai madrinha
cai sapo, lagoa, pé
cai jó, escravos,
cai índios,
cai.

27.4.09

pequeno dicionário de exercícios poéticos

verbete: s.m. insinuação

insinuação
sim não
sim não

16.4.09

insurreição

às vezes dói
(há o que purgar)
a dor decanta
às vezes corrói
escória escorre sua cor
pelo ventre
há quem não sinta
às vezes mói
denso, rombuda mó
esfarinha o ser, pó.

às vezes muda:
um broto brota fundo
raízes pululam
intumescidas umedecidas fincam-surgem
purga-se o asco o turvo o tosco
do corpo destilado
desabrocham-se pelos poros
florada da carne
a pele húmus perfeito.

transfigura-se em cores
toda dor.
flor.

6.4.09

arrepio

arrepio póstumo é memória cutânea.
mas, é além da memória (mero espectro)
vaga que retorna incólume.

ele é além, pois volta o mesmo
embora sem a presença do estímulo - este, já sombra.

eriçar das raízes
sempre o mesmo intenso
correr do esticar do pêlo
com cada inerte em seu lugar na corrente.
apêndices da pele em êxtase
a qualquer hora
paralisam todo o fluxo através do seu próprio
em êxtase filamentoso
o corpo oscila
entre o sono
e a sublevação.

 

3.4.09

ensaio de um dínamo com excitação separada para obtenção do nada

dançar
a
última
dança.

pisar o território transcendente
fruir o passo do tempo, infinito em suspensão.

mover-se fluido pela própria pele - nadador contido -
mover-se indefinido.

remover-se arrebatado
a última dança
o agora!

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