27.4.10

estopim

... o estopim de tudo
das dilacerações
das uniões
dos paradoxos

é o poema?

ou somos nós
arrastando-nos
na relva diária
correndo do leão
diário do medo diário
à luz do dia à luz da noite sob
nossas
sombras?

19.4.10

dia do índio

dia das mães
das crianças
da consciência negra
da mulher...

o calendário
como divã
sociológico.

15.4.10

existência

não sei se me vi vindo feito vidro ou vão

sei apenas isto:
eu m'olhando através
como n'um passo
túnel adentro

ou
sobre ponte
andando lento
...

...
cruamente o
fato simples era
eu -
sendo-me

31.3.10

receita de rotina

esquecer para trás
o feito

tornar-se afeito
aos simultâneos

e, aos sucedâneos,
joga-los para o
alto:

cairão sempre em sua cabeça em momento oportuno

11.3.10

rafaella e aécio

e,
esperando-se ambos,
aconteceram de frutificarem
entre suas peles
a distância

entre suas peles seus pêlos
entrarão memórias e
espasmos de memórias

e,
na flutuação das horas,
germinará dura
a ausência - mês a mês

e,
ao nono mês,
a barriga - plena -
terá se ocupado
em ocupar
sempre
nos dois
cada reentrância

e,
ocupadas todas,
o abismo entre as peles
o abismo entre os pêlos
romperá a bolsa,
imensamente,
uma saudade:

... gêmea.

*poema desenvolvido a partir de uma frase de msn da rafaella: 'nove meses, vou parir uma Saudade'

10.3.10

anatomia

é preciso desatar dos dedos
os dígitos os números as letras.
é preciso urgentemente dos
dedos desocupar-se
soltando-os a si mesmos apêndices dependurados dedos.

é preciso desatá-los. d e s a b o t o á - l o s.
até que mãos sejam apenas
a união dos dedos até que
os braços sejam união dos
dedos até que o corpo inteiro
seja um polegar ou, pelo menos,
um mínimo
apontando
para
cima:

ininterruptamente, Dedo.

5.3.10

literatura

e, se não

nada
a dizer,

escreva.

historieta 3*

e nas cidades deste reino subtropical, sempre houve apenas um motor. motor de cidade não é motor que mistura o cimento da laje do prédio. é preciso deixar tudo claro, pois, em primeiro lugar, é inerente ao motor uma fome constante: quanto mais rápido maior a cidade. é preciso, em seguida, mostrar que, embora motor, seu avanço produz muito atraso – e de que outro modo se enriquece da terra, uma vez que cada palmo conquistado não se dá sem largos passos erosivos?

e o motor, que é a ganância, faz das gentes duas. pouca gente tem muita cidade. e, esta cidade destes, é oferecida aos demais por aluguel: e, pelo aluguel, a cidade desses é mais um deserto que uma cidade. com isso, muita gente dessa tem nada e sobrevive – viver mesmo, ao pé-da-letra, é luxo. sobre o motor, que é a ganância, sabemos: construir a cidade para vendê-la, nunca habitá-la, é seu motor principal. seu mote imoral.


* texto feito 'sob encomenda' para integrar o roteiro do longa de carlos segundo: 'sozinho o herói muda', em elaboração.

confira o blog de carlos segundo: http://cassfilmes.blogspot.com/

3.3.10

dimensões

poemas curtos apenas
faço:
pois não me
resta o
tempo.

quanto aos grandes
passo:
pois tendo tal
tempo nem
poeta ou esteta
tento.

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