espirrar demais atenua
o formigar da ponta do nariz
que decorre do
espirrar.
(demais tênue é a prática perfeita do espirro)
o bom espirrar é de uma vez.
aqueles 3 segundos gastos pra carregar a carga do espirro,
são acúmulo de nervos nas narinas.
(como se naturalmente o nariz soubesse do prazer nascido da angústia da espera)
a tosse, por sua vez, é sempre tentativa de suicídio pulmonar. não convém tossir neste poema.
o espirro é, antes, limpeza aérea.
disso vem a sensação de leveza de espirro
e só uma grande sabedoria percebe que,
sim,
há perigo de su'alma pular fora pelo nariz durante.
do espirro se retém o rubor da face, o lacrimejar dos olhos
e a esperança do próximo
assim que a pressão nos ouvidos diminua,
os pêlos deitem novamente pela pele.
o bom é espirrar uma vez de cada.
espirrar demais é rebeldia.
30.9.09
21.9.09
15.9.09
pequeno dicionário de exercícios poéticos
verbete: junta s.f.
a junta existe apenas na mente - sinapse do azulejo.
a junta existe apenas na mente - sinapse do azulejo.
11.9.09
erro de continuidade
de ontem pra hoje
me faltam cabelos
_________pessoas
_________lugares
de ontem pra hoje.
de ontem pra hoje
_________o tempo
(é ele o senhor da perda).
de ontem não veio
muita coisa:
aquele pássaro, aquela pipa,
viraram nuvem -
erro de continuidade.
me faltam cabelos
_________pessoas
_________lugares
de ontem pra hoje.
de ontem pra hoje
_________o tempo
(é ele o senhor da perda).
de ontem não veio
muita coisa:
aquele pássaro, aquela pipa,
viraram nuvem -
erro de continuidade.
10.9.09
9.9.09
09 09 09
atenção:
não perca a contagem
desse dia
como qualquer
outro
dia.
uma data única...
como qualquer
data única.
detenha-se diante desse dia
como um qualquer
detido diante
como um dedo estendido -
os outros na mão recolhidos
9.
não perca a contagem
desse dia
como qualquer
outro
dia.
uma data única...
como qualquer
data única.
detenha-se diante desse dia
como um qualquer
detido diante
como um dedo estendido -
os outros na mão recolhidos
9.
24.8.09
encurtação
há poesia.
palavras: desnecessarias.
mas como elidi-las ante
o peso da linguagem?
como suprimi-las
quando assentam-se
dominantes
senhores de engenho diante
de vasto latinfúndio?
0.
palavras são como montes, suas sombras alcaçam
todas as paragens e o sol brilha inútil.
1.
desverbarizar as coisas
antes de tornarem
antes da codificação -
alcança-las rápido, ainda em etimologia -
esta dança embrião capturada
dá nascimento à poesia:
palavras são códigos para essências
e poemas, palavras voltadas a essências.
2.
odores irrompem da leitura de um poema -
há movimentação de essências no papel.
3.
falar de diminuições é preciso.
o mínimo existencial,
sem corporeidade ou ocupação,
eterno prenhe, apresenta
espessa densidade:
lugar poético pleno.
decadência ao ponto, vertiginosa queda.
escrevê-lo é decantação.
4.
palavras - imagens empobrecidas? -
operam por artifícios vítreos
abstraídas do peso do olhar.
5.
saber o poema mesmo diante
de sua incontinência inerente.
sabê-lo jorro
(induzir intumescências em seu cerne
produzi-lo faca cujo corte costure
em ausência de fenda -
nasce a linha do movimento de sutura).
lê-lo com a boca:
poema se dá na língua,
antes do olhar.
sabê-lo mesmo diante
de sua incontinente inerência.
6.
poema é
esculpir sem matéria
antes uma dedicação
do que um desempenho.
nasce o poema quando
uma intenção de agir
se perde em sonho ou
concretudes em fumaça.
poema é poesia com
corpo de palavras.
7.
captação - um banco de antenas
(ou uma formiga escala um poste ou simplesmente
um jovem e suas palavras-cruzadas)
um sopro as desalinha,
um gracejo linguístico:
1. idéias se coagulam
2. cai o maná semântico
3. poetas se alimentam
4. impurezas ficam pelo estômago, pelo intestino,
5. sai pelo reto o poema e
6. reto e límpido cai na folha branca.
8.
o poeta é antes uma prensa do que um poeta.
9.
há palavras. não há o poema.
poema mesmo é uma resistência
ao fluir manso da linguagem,
um acidente premeditado.
é redução contínua,
ato irresponsável.
10.
arremessar lufadas de ar contra
a inexorável chama do idioma:
a chama da convenção consome a língua (movimento suicida)
o poema sopra na vela seu teor de parafina. a chama se sustém.
11.
!:
da prensa de vento do poeta
escorre (agora) a palavra
amanhã.
palavras: desnecessarias.
mas como elidi-las ante
o peso da linguagem?
como suprimi-las
quando assentam-se
dominantes
senhores de engenho diante
de vasto latinfúndio?
0.
palavras são como montes, suas sombras alcaçam
todas as paragens e o sol brilha inútil.
1.
desverbarizar as coisas
antes de tornarem
antes da codificação -
alcança-las rápido, ainda em etimologia -
esta dança embrião capturada
dá nascimento à poesia:
palavras são códigos para essências
e poemas, palavras voltadas a essências.
2.
odores irrompem da leitura de um poema -
há movimentação de essências no papel.
3.
falar de diminuições é preciso.
o mínimo existencial,
sem corporeidade ou ocupação,
eterno prenhe, apresenta
espessa densidade:
lugar poético pleno.
decadência ao ponto, vertiginosa queda.
escrevê-lo é decantação.
4.
palavras - imagens empobrecidas? -
operam por artifícios vítreos
abstraídas do peso do olhar.
5.
saber o poema mesmo diante
de sua incontinência inerente.
sabê-lo jorro
(induzir intumescências em seu cerne
produzi-lo faca cujo corte costure
em ausência de fenda -
nasce a linha do movimento de sutura).
lê-lo com a boca:
poema se dá na língua,
antes do olhar.
sabê-lo mesmo diante
de sua incontinente inerência.
6.
poema é
esculpir sem matéria
antes uma dedicação
do que um desempenho.
nasce o poema quando
uma intenção de agir
se perde em sonho ou
concretudes em fumaça.
poema é poesia com
corpo de palavras.
7.
captação - um banco de antenas
(ou uma formiga escala um poste ou simplesmente
um jovem e suas palavras-cruzadas)
um sopro as desalinha,
um gracejo linguístico:
1. idéias se coagulam
2. cai o maná semântico
3. poetas se alimentam
4. impurezas ficam pelo estômago, pelo intestino,
5. sai pelo reto o poema e
6. reto e límpido cai na folha branca.
8.
o poeta é antes uma prensa do que um poeta.
9.
há palavras. não há o poema.
poema mesmo é uma resistência
ao fluir manso da linguagem,
um acidente premeditado.
é redução contínua,
ato irresponsável.
10.
arremessar lufadas de ar contra
a inexorável chama do idioma:
a chama da convenção consome a língua (movimento suicida)
o poema sopra na vela seu teor de parafina. a chama se sustém.
11.
!:
da prensa de vento do poeta
escorre (agora) a palavra
amanhã.
17.8.09
do ponto ao traço
galinhas d'angola carregam pontos,
zebras, listras.
na campina - uma zebra em disparada
deixa angolas rolando pelo
caminho.
no caminho - galinhas d'angola saltitando
criam, na campina,
zebras voadoras.
(para Itamar Rios)
zebras, listras.
na campina - uma zebra em disparada
deixa angolas rolando pelo
caminho.
no caminho - galinhas d'angola saltitando
criam, na campina,
zebras voadoras.
(para Itamar Rios)
7.8.09
escambo
saia troca calça troca tela troca
brinco troca bota troca bolsa troca
troca bala troca pelo troca muda...
troca a peça à vista troca pele troca
revista.
troca pela troca pelo velho pela troca
nova troca velha troca pelo trôco.
troca.
a novidade pela troca vem do velho:
renovo. reuso. retorno.
revista troca livro troca colcha troca o mesmo troca
pouco?
troça?
troco.
(pipa/skate/bicicleta/balanço
pulo/roda/voa:
na dança dos objetos, o vento - onipresente).
(para Ariel Lazzarin)
brinco troca bota troca bolsa troca
troca bala troca pelo troca muda...
troca a peça à vista troca pele troca
revista.
troca pela troca pelo velho pela troca
nova troca velha troca pelo trôco.
troca.
a novidade pela troca vem do velho:
renovo. reuso. retorno.
revista troca livro troca colcha troca o mesmo troca
pouco?
troça?
troco.
(pipa/skate/bicicleta/balanço
pulo/roda/voa:
na dança dos objetos, o vento - onipresente).
(para Ariel Lazzarin)
15.7.09
hifenização
estes olhos furta-cor
engolem arco-íris:
não querem saber de ano-luz, cheiro-verde, feijão preto, amizade-colorida, manga-rosa...
zaz-traz! (um relâmpago passa, curto-circuito natural)
este arranha-céu
e sua silhoueta desenhada
em claro-escuro.
esta tarde rubro-negra
arrota hífens e afins.
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